O cérebro entre dois idiomas

(post em 16/10/2016)


Quando a gente mora fora muito tempo acaba incorporando um novo idioma na rotina e no cérebro e isso é maravilhoso, pois abre portas e horizontes. Podemos ler sem dificuldade em outra língua, expressar-nos de maneira distinta e incorporar vocábulos diferentes e dá um orgulho danado conseguir falar numa língua estrangeira quando somos adultos.

Porém, nem tudo são flores. Quem acaba prejudicado é, justamente, o idioma nativo. Chega a ser um paradoxo, pois quanto mais sabemos as regras do nosso idioma materno, mais chance temos de falarmos bem o novo idioma. Entretanto, ao estarmos mais tempo em contato com a nova língua e esporadicamente usarmos o idioma materno, este tende a passar por certas, digamos, transformações.

Atenção: este não é um post científico e está apenas baseado na minha experiência de estar falando português e espanhol durante seis anos que morei em Madrid.

Vejamos alguma delas:

1- Você não consegue mais dizer uma frase sem usar palavras do novo idioma.

Essa é o problema mais incompreendido por alguém que não fala com fluência nenhuma língua estrangeira. E o pior que isso começa sem querer porque a palavra do novo idioma está mais acessível que a do idioma nativo. Os únicos que entendem é quem passa pela mesma situção, seus novos amigos brasileiros que também sempre usam alguma palavra ou expressão para ajudar no discurso. Nem adianta tentar explicar para quem ficou no Brasil, pois estes já te tacharam de metido…

2- Você esquece algumas palavras em português.

Não sei se é uma questão de idade também, mas acho que nosso cérebro começa a “apagar” algumas informações para dar espaço para outras. Entre ficar tentando se lembrar como se chama tal coisa em português, preferimos usar a palavra do novo idioma e aí voltamos ao item 1.

3 – Você começa a falar português mais devagar.

Com medo de cometer algum deslize na frente dos amigos, o seu cuidado com as faltas redobra e, naturalmente, se começa a falar um pouco mais devagar. Afinal, você está pensando no que está dizendo.

4 – Palavra nova que se aprende em espanhol será sempre usada em espanhol.

Jamais conseguirei dizer “aquecedor”, pois incorporei “caldera” na minha vida e nunca comerei lulas, sempre “calamares”. Grão de bico? Vou ter que procurar no dicionário porque só conheço “garbanzo” .

5- Você nem percebe a língua que está lendo ou escrevendo:

Em tempo de zapping na Internet, o cérebro de um bilíngue nem se dá conta de qual idioma ele está lendo ou escrevendo. Porém, é preciso ter cuidado ao não mandar o email em espanhol para sua mãe e o escrito em português para o seu chefe.

6 – Não importa o quanto você negue, os amigos dizem que você está falando português com sotaque.

7- E qual é o problema de se falar com sotaque mesmo?

Não é só quem está fora do Brasil que fala português com sotaque, pois todo mundo já carrega o seu acento regional. Afinal, não exixxxxxte portuguêxxxx ou nenhuma língua que seja “pura”, mermão. Cerrrrrrrto?


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7 Comentários

  1. Susana diz:

    Para mim em Portugal já não existe “transito”… há “atascos”… e o’ora!’ Virou ‘hombre’! E muitas mais palavras…
    E pior que esquecer uma palavra no teu idioma nativo é tentar explicar um conceito e ter de usar 2 ou 3 linguas diferentes, porque so tens pedaços da informaçao em cada uma delas… vida de bilingue/trilingue é dificil! Ahahah

  2. Juliane diz:

    Nossa Ju, estou em Madrid só a 6 meses e já não busco minha filha no “cole”, a “recolho” kkkk

  3. Larissa Dias Andrade diz:

    Hahahah, é bem por aí! Abanico é uma palavra que só sei em espanhol… e às vezes misturo tudo!

  4. Luciana diz:

    Depois de quase 20 anos aqui acho que falo portuñol,a mim me passa exatamente o que diz o texto. As vezes me sinto mal.

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