O senhor do jornal

(post em 22/12/2015)


Em Madri, há o saudável costume de deixar o jornal que já foi lido para o próximo passageiro. Você leu as notícias e está bem informado? Passe para frente, ao infeliz que esqueceu o livro em casa ou está com a bateria do celular descarregada.

Comecei a observar todas as terças e quintas, quando pegava o metrô na estação Lista, havia um jornal ABC ou El Mundo no banco. Jornal na Espanha é coisa séria: define sua personalidade. Longe de defender uma suposta isenção e objetividade, os editoriais aqui tomam partido claramente.

Para saber a linha editorial de um periódico basta observar o quanto a Família Real espanhola aparece nas suas páginas. Se por qualquer motivo lá está a foto do Rei ou da Rainha, o jornal é de direita; se por outro lado, os soberanos são notícia em ocasião muito especial, a publicação é de esquerda. Isso vale também para notícias relacionadas a temas como aborto, imigração e questões sociais em geral.

Como encontrava duas vezes por semana o bendito exemplar, pensei que o dono do meu jornal fosse um morador da região. Alguém que tomou o café em casa e resolveu deixar o tabloide no banco antes de ir para o serviço. Mas o que ele leria na viagem? Descartei a hipótese. Era alguém que lia o periódico ali antes de ir para o trabalho. Homem ou mulher? Velho ou novo?

Estava me roendo com essas perguntas quando chegou o grande dia. Em lugar de encontrar o jornal esperando por mim estava um senhor lendo suas páginas avidamente. Fiquei muito feliz porque finalmente o conheceria, mas em seguida me veio um sentimento de frustração. Se ele ainda se encontrava na estação significava que eu não poderia levar o diário durante minha ida para o trabalho.

Tratava-se de um senhor calvo, de óculos, já entrado em anos, bem vestido de terno e gravata. Lia o jornal com atenção, mas com certa pressa, como se o tempo para a leitura estivesse acabando. O metrô chegou e tive que subir ao vagão desapontada porque não pude pegar o meu jornal.

No entanto, o fugaz encontro foi suficiente para que se acendesse minha imaginação. Era um senhor que votava na direita. Passou toda sua vida trabalhando no mesmo lugar, se casou, pagou a hipoteca da casa, criou os filhos da melhor maneira que pôde. Deveria estar espantado como a Espanha havia mudado nos últimos trinta anos. Talvez esperasse com ansiedade pela aposentadoria, ou talvez não pudesse se aposentar ainda justamente porque o governo havia mudado as regras. Sua ambição atual, com certeza, era ficar em casa esperando pelos netos que ainda não vieram porque os filhos que tanto estudaram não conseguiam emprego por causa desta maldita crise. Quem sabe os netos estavam em casa porque o filho estava desempregado. Entre ficar em casa e trabalhar, ele preferiu a segunda opção.

Tudo isso me passava pela cabeça todas as terças e quintas. Pensei que ele fosse assinante do ABC, mas quando comecei a ver exemplares do El Mundo concluí que ele devia comprar o jornal em uma banca perto de casa. Ele e o jornaleiro deviam se conhecer. Fazia parte da rotina de homem metódico comprar o jornal depois do café da manhã. Aqueles minutos de leitura certamente eram um dos poucos momentos de paz entre a casa e o trabalho rotineiro.

Continuei a recolher o jornal. Em uma ocasião o encontrei na escada do metrô. Era bem mais baixo que eu. Um dia, nos vimos pela rua. Fiquei emocionada, mas apertei o passo para tentar pegar o meu jornal a tempo.Terça e quinta eram dias de ansiedade e claro que foi crescendo em mim o desejo de falar com este homem. “Olá! Sabia que eu pego o seu jornal? Passar bem. Obrigada.” Ridículo. “Só queria dizer que o senhor me alegra as minhas manhãs de terça e quinta”. Ele não entenderia meu sotaque. De manhã não consigo falar português que dirá espanhol.

Paciência. Nunca terei coragem de dirigir-lhe a palavra. Divergiríamos em algumas posições políticas, porém lhe estou agradecida. Ele não vai saber o quanto me salvou do tédio todos esses meses. E certamente a várias pessoas, pois também cumpro o rito de deixar o jornal no assento do metrô para que outro passageiro possa desfrutá-lo. Em tempos de celulares inteligentes, ao menos me restará o consolo de uma foto. Meu senhor, obrigada por tudo.

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2 Comentários

  1. Phillipe diz:

    Adorei o texto e suas nuances. Muito bom Juliana. Mande lembranças à Madri.

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