Por que saí do Brasil?

(post em 07/12/2015)


Como tenho recebido emails perguntando “por que saí do Brasil” lembrei de uma entrevista que dei para o site “I Am Gringo”, mas nunca foi publicada. O texto é longo, mas explica direitinho a minha vinda para a Espanha, as dificuldades e os motivos que me fizeram ficar.

Você mora sozinha? Com quem mora?

Moro com meu marido e meu filho.

Há quanto tempo está no país?

Há cinco anos.

Com o que você trabalhava no Brasil e qual o seu trabalho atual (se tiver tido mais de um trabalho no país)?

Era professora de História, trabalhava numa escola particular e num curso de Teologia. Igualmente, tocava piano em casamentos; promovia concertos e estive um período como assessora de imprensa em uma escola de música. Atualmente dou aula de português em empresas e tenho em dois blogs: Rumo a Madri (sobre turismo), Um ano na Espanha (sobre o cotidiano, arte, viagens, maternidade e história) e faço parte dos Blogueiros de Língua Portuguesa em Madri. Fui colaboradora em outros dois blogs: Brasileiras Pelo Mundo e o Brasil com Z, e em uma revista local, a Brazil com Z.

O que te levou a sair do Brasil?

Vários fatores: o sonho de conhecer a fundo a Europa, a violência no Rio de Janeiro e a falta de vida cultural da minha cidade.

Porque escolheu a Espanha?

Pelo idioma, pela cultura, pela história e porque não dizer, por não ser um país tão caro como Inglaterra ou França.

Conhece o idioma? Já conhecia quando se mudou?

Já conhecia, mas a versão argentina. Tive que reaprender quase tudo.

Qual o custo de vida? É mais barato ou mais caro em relação à sua cidade natal?

O custo de vida é menor que em Niterói (RJ) ou no Brasil porque a qualidade é melhor. É impossível você comparar um ônibus horrível e despreparado para receber idosos e crianças como aqueles que temos na minha cidade com os coletivos daqui. Para você ter uma ideia, eu entro com o carrinho de bebê no ônibus e ainda temos wi-fi de graça!

Além disso, a saúde e a educação são gratuitas. As ajudas do governo diminuíram por causa da crise e os preços aumentaram, mas ainda assim é mais barato ou igual. Isto sim, não é um país para “ficar-rico-e-voltar-para-o-Brasil”, pois o aluguel – por exemplo – é caro e comer fora todos os dias também.

Qual a relação de infraestrutura da cidade (estradas, transportes públicos, hotéis, saúde, educação, limpeza) você faz com o Brasil?Essa é a pergunta mais difícil (risos) !! A Espanha recebeu grandes investimentos da União Europeia nas últimas décadas e assim, toda a infraestrutura além de ser excelente, é nova. Quanto à saúde, não posso reclamar: tive meu filho pela saúde pública em um hospital maravilhoso e com toda atenção.

Em relação à educação, agora estou conhecendo este universo porque meu filho está na creche. Aqui existem três tipos de modelos: pública, gratuita (exceto a creche e a universidade que não são obrigatórias); a “concertada”, onde o governo paga uma parte da mensalidade e os pais outra; e a particular. Convém lembrar que a educação pública aqui é melhor se comparada ao Brasil, mas está em último lugar em relação aos demais membros da OCDE.

Leia mais sobre educação infantil em Madrid

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O que te chamou atenção na cultura espanhola?

Tudo! A quantidade de festas ao longo do ano, por exemplo; a valorização de uma cultura e um estilo de vida próprio; a oferta cultural tanto numa capital como Madri quanto numa cidade de médio porte, como Alcalá de Henares. E, principalmente, a comida que também faz parte desta cultura. Igualmente, a questão da identidade regional que se sobrepõe à nacional e isto acaba gerando especificidades dentro de cada região.

Você morou em alguma outra cidade antes de Madri?

Morei em Alcalá de Henares, na Comunidade (estado) de Madri.

Tem alguma história engraçada/inusitada que aconteceu com você no país?

Várias! A primeira foi logo que chegamos. Na Espanha se almoça às 14h e entramos num restaurante às 12:30 para comer. Quando fomos fazer o pedido, o garçom nos respondeu com toda aquela grosseria que eles são capazes: a cozinha nem está aberta, quanto mais a comida está pronta. Saímos de fininho.

Igualmente, o conceito de tempo. Como se almoça às 14, a tarde esta se inicia depois desta hora e não após o 12h. Então, quando meus alunos pediam aula “por la tarde” eu logo dizia “às 13h está bom?” e eles riam. Agora eu brinco: tarde da Espanha ou tarde do Brasil?

O que do Brasil te faz mais falta? Em que momento você sente/sentiu mais saudade?

Sinto mais falta da família e dos amigos, claro; porém da paisagem. Venho de uma cidade que tem uma natureza deslumbrante, praias lindas e aquela incrível vista para o Rio. Os momentos que sinto mais saudade são o Natal (óbvio), mas também do carnaval que voltou a ser uma festa de rua, da praia e de uma boa roda de samba.

Paradoxalmente, ao contrário do que sente a maioria dos expatriados, o primeiro ano foi fácil, pois tudo era novidade e queríamos conhecer o máximo. Estou sentindo mais falta agora, com meu filho, que está crescendo longe do entorno familiar.

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Como não sentir saudade?

 

Do que você não sente falta no Brasil?

Não sinto falta da violência, da desigualdade social, do trânsito absurdo, das cantadas idiotas, e nem da falta de responsabilidade que, em geral, o brasileiro tem para com seus compromissos.

Você gosta da comida local? É muito diferente da brasileira?

Adoro. É muito diferente. Aqui se come mais batata e nunca se come feijão, por exemplo. Também há mais peixes, tomates e azeite na dieta, sem deixar de mencionar a onipresente carne de porco e o jamón (presunto) serrano.

Incorporei no meu dia a dia alguns alimentos que nunca tinha provado como a carne de peru ou que experimentava de vez em quando como as lentilhas e o grão de bico.

O que você costuma fazer nos momentos de folga? Quais os programas existem para se fazer na cidade?

Nosso programa preferido é simplesmente sair caminhando sem destino, parar, tirar fotos algo que era impossível fazer em Niterói ou no Rio com tranquilidade. Como somos apaixonados por arte, geralmente, nos fins de semana vamos a alguma exposição. Mas tem muita coisa pra fazer: teatro, balé, cinema, concertos, shows, futebol, tomar uma cerveja em algum dos milhares de bares. Uma coisa é certa: ninguém morre de tédio em Madri!

Você encontrou algum problema para obtenção de documentos e visto?

Para o visto só a chateação de reunir todos os documentos, as traduções e o nervoso de esperar a resposta da universidade. Paralelo a isso estava dando entrada na minha cidadania portuguesa e pude ficar aqui sem problemas.

O que você menos gosta na cidade, ou no país?

De Madri, o único mal que se pode dizer é que aqui não há praia (risos)! Mas há outras coisas: as pessoas fumam demais e eu odeio cigarro. Para quem vem de cidade grande é desesperador como os madrilenhos andam devagar pelas calçadas! Entretanto, isso é reflexo de uma cidade que é segura, onde você não tem pressa de chegar a um lugar específico para se proteger de um possível assalto.

Também detesto as touradas e os “encierros”, por mais que me digam que é uma manifestação cultural. Igualmente, não entendo porque as pessoas te tratam tão mal para te atender no comércio.

Saiba mais sobre as touradas neste post.

Você falou sobre a relação dos espanhóis com clientes. Qual a relação dos nativos com brasileiros e demais estrangeiros? Você possui amigos espanhóis?

Não quero generalizar, mas aqui o brasileiro é muito bem-visto. Os espanhóis tem um carinho especial com os jogadores de futebol e com as modelos brasileiras que fazem muito sucesso por aqui.

No futebol, existe uma forte rivalidade entre espanhóis e italianos; já os portugueses são ignorados completamente, salvo nas cidades próximas à fronteira. Outro grupo que sofre bastante são os ciganos, os marroquinos e os latinos que tem traços indígenas. Infelizmente, são os alvos preferenciais para batidas policiais.

De novo, não posso falar por todos os que vivem neste território, mas sinto que eles próprios já têm muita rixa entre si para escolher um povo do seu entorno para ficar de rivalidade. Tenho alguns amigos espanhóis, mas como toda boa imigrante, a gente acaba fazendo mais amizade com outros não-nativos.

O que é falado sobre o Brasil por aí?

Atualmente, aqui só se falavam coisas boas do Brasil. Aliás, a pergunta que mais escuto é o que estou fazendo numa Espanha em crise num momento em que o meu país está tão bem. Atualmente, isso está mudando.

No período de acontecimento e pós-Copa do Mundo, as notícias sobre o Brasil e a organização remetiam mais para o lado positivo ou negativo?

As duas coisas, mas sempre pendia mais para o positivo. No entanto, o que mais os espanhóis tinham medo era de pegar o Brasil nas oitavas. Deu no que deu!

Gostam da música brasileira? Como é a repercussão das músicas do Brasil?

A Espanha não está isenta da moda do sertanejo universitário. Poucos conhecem a boa música brasileira, apenas quem já visitou o Brasil. Porém, fico impressionada com a quantidade de gente, de todas as idades, que conhece Roberto Carlos. Caetano Veloso sempre é bem acolhido; mas quem deixou ótimas lembranças quando esteve aqui foi Carlinhos Brown.

Conheça artistas brasileiros que moram e trabalham aqui

Quais são os principais ídolos (esporte, música, política ou TV) atualmente no país?

Em termos de esportes continuam na crista da onda Rafael Nadal (tênis), Paul Gasol (basquete), Alberto Contador (ciclismo) e Fernando Alonso (automobilismo). Do lado feminino, a nadadora Mireia Belmonte. Depois do fiasco da Copa, os jogadores da seleção sofreram um baque e estão em baixa; entretanto seguem em alta tanto Cristiano Ronaldo como Messi.

No cinema, cumpre destacar os atores que protagonizaram “Ocho apellidos vascos” (Oito sobrenomes vascos, tradução livre), Dani Rovira e Clara Lugo. É uma comédia romântica sobre um rapaz de Sevilha que se apaixona por uma garota do País Vasco. O filme mostra as diferenças entre o norte e sul da Espanha, a questão do regionalismo, da identidade, etc. Creio que esta obra não vai fazer muito sucesso no exterior porque é preciso saber muita história e costumes espanhóis para entender as piadas.

Para a minha tristeza, os toureiros são tratados como celebridades também. Enchem as páginas das revistas de fofocas e, em menor medida, aparecem na publicidade.

Quanto à política, um novo partido está surgindo, o “Podemos”, cujo dirigente, Pablo Iglesias, é bastante carismático e foi a grande surpresa das eleições para deputados no Parlamento Europeu.

O que você costuma assistir na TV?

Quase não vejo TV, mas um dos meus programas preferidos era o “Madrileños por el mundo” que conta a vida dos madrilenhos expatriados.

A TV espanhola produz várias séries com temática histórica. Assiti “Hispania” que contava a história deste pedaço da Península Ibérica sob a ocupação romana.

Há alguma mania/febre no país atualmente?
As pulserinhas de borracha, a zumba e passear de limusine pela cidade para comemorar despedidas de solteiro e aniversários.

Já foi em algum encontro de brasileiros aí?

Participei do Primeiro e do Segundo Encontro Europeu de Blogueiros Brasileiros realizados em Barcelona e no Porto, respectivamente. Do mesmo modo, participo virtualmente de dois grupos femininos: Mulheres Brasileiras em Madri e Mamães Brasileiras em Madri.

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Você conheceu/utilizou algum produto ou serviço que recomendaria a ser utilizado no Brasil?

O banho árabe! Ir às piscinas para tomar banho, fazer massagem e encontrar com os amigos era tradição no Império Romano. Os árabes também o faziam e com o boom do turismo, uma empresa abriu casas especializadas em Madri e no sul da Espanha. Experimentei em Madri e simplesmente adorei!

Quer ler minha experiência? Clique aqui!

E algum produto ou serviço esquisito, já encontrou por aí?

Ainda não.

Quais são os 3 esportes mais populares no país?

Futebol, futebol e futebol (risos). Falando sério, o basquete é bem popular, o automobilismo e o tênis. Os outros esportes existem somente durante as Olimpíadas.

A população se envolve muito com a política? Qual a opinião/relação geral e sua do atual governo?

Muito. Já presenciei alguns momentos históricos desde que cheguei: o cessar-fogo do grupo terrorista ETA, o 15-M, duas greves gerais, as eleições para presidente e a proclamação do novo rei; além de inúmeras manifestações contra o governo. Em todas elas o grau de envolvimento cidadão é expressivo; qualquer descontentamento se resolve convocando as pessoas para irem às ruas. E elas vão!
Em geral, o governo é bastante criticado por causa dos cortes do orçamento e subsídios que ajudavam boa parte da população a viver com de dignidade. Recentemente, muitos escândalos de corrupção e tráfico de influência têm vindo à tona combalindo a imagem do Partido Popular. Entretanto, querendo ou não, o atual presidente de governo foi eleito com ampla maioria.

Você gosta da música espanhola? Tem algum cantor/banda que recomenda?

Meu gosto para música é um pouco peculiar porque aprecio mais a música clássica. Por isso, fico muito feliz em ver o Plácido Domingo ainda cantando e Montserrat Caballé e Teresa Berganza vivas; e fiquei arrasada quando Paco de Lucía morreu.

O espanhol padece do mesmo defeito do brasileiro: tudo que é da terra é desprezado. Aqui em Madri, todos fazem questão de afirmar que o flamenco é algo do sul, para marcar as diferenças. Mesmo assim, os cantores que se dedicam ao ritmo sempre estão em evidência. Vou citar apenas dois: Estrella Morente e Diego, el Cigala.

A bola da vez entre as cantoras é Ruth Lorenzo que representou o país no Eurovisión em 2014. Quem gosta de música pop tem David Bisbal e Alejandro Sanz, o veterano Rafael e para um rock típico dos anos 80, Joaquín Sabina, velho de guerra. Sem esquecer Julio Iglesias que nunca perde a majestade.

Você falou sobre as touradas e atualmente a mídia mostra que há uma grande discussão por parte do assunto no país. Como os espanhóis encaram e tratam o assunto?

Antes de responder esta questão gostaria de esclarecer que além das touradas há outras festas (para mim, atrocidades) envolvendo os animais. A mais conhecida é o “encierro” de Pamplona onde touros são soltos nas ruas da cidade e a multidão sai correndo até a “plaza” de touros com os animais no seu encalço. Ainda há as “festas” onde se colocam bolas de fogo nos chifres do animal e o soltam, as “correbous”. E, por último, uma tradição da cidade de Tordesilhas, o touro de la Vega, onde um animal é solto pelas ruas da cidade e perseguido por homens armados de lanças até um campo aberto. Se o touro consegue escapar da morte até os limites desse campo, ele é indultado; senão ele é espetado até a morte.

Nesta questão vejo que os espanhóis são muito divididos: uns adoram as touradas, outros detestam e há os indiferentes que afirmam que elas fazem parte da cultura do país e se deve deixar que elas acabem com o tempo. Algumas regiões da Espanha é proibido realizar touradas como a Catalunha e as Ilhas Canárias.

As touradas podem ser comparadas exatamente ao futebol e foi, inclusive, a esperança de milhares de meninos pobres de ascender socialmente. Há a primeira e a segunda divisão dos toureiros, fãs apaixonados, colunas especializadas nos jornais e debates na TV. Para você ter uma ideia, os encierros de Pamplona são transmitidos ao vivo e depois comentados com direito a replay e tira-teima!

Esses protestos que você mencionou acontecem todos os anos; entretanto, não há nenhum interesse com que se acabe com esses espetáculos cruéis. Ainda se movimenta muito dinheiro com a “fiesta nacional”, desde o criador de touros até o rapaz que ajuda o toureiro a se vestir, passando pelos direitos de transmissão da TV. Sem falar que as touradas estão presentes no sul da França, Portugal, Peru, Colômbia e México.

Conhece alguma história (ou lenda) da cultura que pode contar?

Os muçulmanos ficaram uns 800 anos na Península Ibérica e aprendemos na escola que eles foram expulsos em 1492, pelos reis católicos Isabel e Fernando, com a conquista de Granada. Mas é mentira!

Na verdade, Boabdil (o último rei mouro de Granada) e seu exército não voltaram para a África como foi setenciado pelos soberanos cristãos. Eles estão escondidos nas montanhas de Granada, espadadas embainhadas, montados em valorosos corcéis, sob um feitiço. Na noite de são João, os soldados se despertam, os comandantes começam a gritar ordens aos homens, a fim de animar suas fileiras para juntos reconquistarem Granada. Quem passa por ali, jura que ouve os relinchos dos cavalos e a movimentação das tropas, o tilintar das espadas e as juras de vingança contra os cristãos…

Quem quiser saber como o sortilégio pode ser quebrado basta ler “Lendas da Alhambra”, de Washington Irving.

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No palácio de Alhambra, Granada.

 

Existe algum programa do governo que lhe chame a atenção?

As campanhas contra violência de gênero, aqui chamadas “violência machista”. Convém lembrar que a Espanha viveu quase 40 anos do século 20 sob a ditadura de Franco (1939-1974). Enquanto nos países da Europa democrática as mulheres começaram a sair de casa para estudar e trabalhar, essas novidades nem chegavam aqui. Na época de Franco, as mulheres deveriam ser esposas submissas e voltadas ao lar. Trabalho feminino era o doméstico ou o burocrático e, assim, a mulher tinha poucas opções.

Com a redemocratização, tudo foi repensado, inclusive o papel da mulher na sociedade. Para acabar com o círculo vicioso de violência do marido contra a esposa, uma grande campanha foi deslanchada e até hoje continua em vigor. São campanhas de conscientização, de estímulo a denúncia de maltrato, além de suporte financeiro para quem se encontra em situação de risco. Não há delegacias especializadas e todo caso de mulheres assassinadas é noticiado com destaque no jornal. Vou ilustrar com um caso que aconteceu, em Bilbao, com uma imigrante nigeriana.

Nesta cidade espanhola, um suposto mestre de artes marciais contratou os serviços de uma profissional. Notem: mulher, prostituta e negra. Talvez seja um dos grupos mais desprezados da sociedade, certo? Pois o homem a levou à academia, a torturou, mas por sorte, um pedestre que passava ouviu gritos e ele foi denunciado. A polícia a encontrou inconsciente, bastante machucada e o homem foi preso. O que a prefeitura de Bilbao fez? Todos os funcionários se reuniram nas escadarias da prefeitura, ao meio-dia, para mostrar sua solidariedade com a vítima e repudiar o ataque. Infelizmente, a mulher faleceu pouco depois no hospital. Não consigo imaginar nenhuma prefeitura fazendo o mesmo no Brasil. Pode-se alegar que os números são mais altos – e é certo – mas porque não instituir um dia para lembrar todas as mulheres mortas ou vítimas de estupro?

Como está a situação econômica e social do país pós crise? E como foi passar todo esse período na Europa?

É muito diferente viver num país em crise, mas com estrutura. O desemprego é alto, mas o seguro-desemprego dura dois anos. Uma vez que você não precisa se preocupar com os gastos de educação e saúde é mais fácil se planejar.

No entanto, a brecha entre ricos e pobres aumentou, muita gente perdeu casas porque não conseguia pagar a hipoteca, outro tanto teve que sair do país e vários imigrantes voltaram aos seus países de origem. Igualmente, vários benefícios foram suprimidos como o cheque-bebê, ou reduzidos, como as bolsas para faculdades e pós-graduação.

Pensa em voltar para o Brasil? Se sim, quando?

Não. Como disse, sinto muita falta da minha família e dos meus amigos, mas compensa estar num país onde não preciso me preocupar com a violência.

Qual o seu sentimento pela Espanha?

De felicidade. Não digo gratidão porque não devo nada ao país. Antes me sentia muito grata pela saúde pública, mas convém lembrar que isso é obrigação do governo e, afinal, é paga com o meu suado dinheirinho. Foi outra coisa que aprendi aqui: o governo existe para servir a população e não ao contrário. Por isso, falo em felicidade. Nunca me senti tão feliz na minha vida!

O que mudou em você antes e depois da vida na Espanha?

Em primeiríssimo lugar, toda tensão que sofria pela violência desapareceu. Aprendi que é possível andar na rua com calma e ficar sentada à toa numa praça.

Estou mais tolerante e aberta às pessoas que não compartem da minha cultura, nacionalidade ou crenças. Existe outra maneira de ver o mundo e devo respeitá-la. Igualmente estou menos machista e aprendi a não julgar uma mulher pelas roupas que ela está vestindo ou pelo corte de cabelo.

Também mudou minha visão sobre a questão do sistema de saúde no que concerne à gestação e ao parto. No Brasil, a mulher tem que lutar muito se quiser ter parto natural; aqui você é encaminhada pelo sistema para fazê-lo. Costumo afirmar, de brincadeira, que fui obrigada a fazer parto normal. A discussão, na Espanha, é dar cada vez mais autonomia à mulher para decidir como será seu parto natural. A reivindicação principal é proporcionar um parto humanizado e que o parto seja em casa, algo que o sistema público espanhol não cobre atualmente. No Brasil, o debate ainda é se o parto natural poderá ser feito ou não; se a mulher vai conseguir ou não.

Quais características gostaria que seu filho tivesse do jeito brasileiro e da maneira espanhola de ser?

De novo, convém não generalizar. Acho os dois povos tão parecidos nos seus defeitos e qualidades que não me preocupo. Mas queria que ele conservasse a amabilidade dos brasileiros em conversar com um desconhecido seja no comércio, seja esperando o ônibus.

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E que meu filho torça para o Flemengo!

 

Viver na Espanha é…

Maravilhoso!

Que conselhos você daria a quem pretende visitar ou até mesmo se mudar para o país?

Para quem vem visitar que fique muitos dias em Madri (risos) !! Quem vem para morar deve repensar, pois a crise está terminando, mas lentamente. No mais, estudar o idioma, ler jornais, se informar sobre o país como um todo, mas, sobretudo a cidade/região que você ficará. Em certas regiões, há mais de um idioma oficial e conhecê-lo abre mais portas.

Para isso, aproveite todas as facilidades que a Internet proporciona. Um ano antes de vir, lia os jornais espanhóis todos os dias e revistas de fofoca também para me familiarizar com o ambiente. Através dos mapas sabia onde estavam os principais bairros de Madri, as distâncias, etc. Tudo isso me ajudou a me adaptar rapidamente ao país.


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4 Comentários

  1. Nossa, Ju, que legal a sua história. O espanhol da argentina e o daqui são realmente bem diferentes… Concordo que as pessoas que estão pensando em vir morar aqui, devem pensar bem. Para algumas áreas é muito difícil conseguir emprego.

  2. Flávia diz:

    Lendo essa materia maravilhosa, fiquei mais ansiosa para conhecer esse país maravilhoso!

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