Tourada

(post em 12/10/2013)


DSC09050Sempre quando recebo algum compatriota ou volto a terrinha me perguntam: os espanhóis gostam mesmo de tourada? Sim e não. Ainda tem gente que vai e curte, outros que são contra e os indiferentes. Contudo, mesmo para quem é contra a “fiesta” (termo discutível) é impossível não escapar. O jornal “El País” tem coluna diária sobre o tema na época das touradas. O canal Telemadrid promove debates do tipo “mesa-redonda” durante a madrugada. Querem mais? Há bares que colocam telões para a clientela assistir confortavelmente, pois algumas touradas são transmitidas ao vivo, com direito à narração, replay e melhores momentos. Olhem só a foto ao lado com a grua e um câmera filmando em Las Ventas, a plaza de touros de Madri!

Afinal, um dos estereótipos da Espanha e dos espanhóis é o toureiro e o flamenco. Será que todo mundo aqui pega o touro à unha? Toda espanhola sabe tocar castanhola? Sobre a música e a dança deixarei para depois, porque hoje vou explicar um pouco sobre a “fiesta nacional” ou as “corridas de toro”.

Quero deixar claro que sou contra as touradas. Porém, “em Roma faça como os romanos” e onde mais iria assistir a este espetáculo tão cruel? Fui, então, não a uma “corrida de toros” e sim, às “novilladas”. A “corrida de toros” (tourada, em português) envolve animais acima de 600kg. A novillada é para reses abaixo deste peso. São os toureiros em começo de carreira que participam das novilladas . Vamos dizer que eles são a última etapa de formação na vida de um toureiro, uma divisão de base. Existem também as touradas a cavalo, as variações encontradas em cada país, etc. Aliás, para compreender as touradas é preciso fazer Doutorado na matéria ou nascer aqui. O meu relato será um resumo do que vi em Las Ventas.

Seria uma agradável tarde entre amigos se não fosse a barbaridade infligida aos animais. O mais contraditório é que há uma parte bonita e interessante. Sério! Vou tentar explicar como se desenrola.

DSC04033Para começar, a Plaza de Toros é dividida como um estádio de futebol. Tal qual o Maracanã o que determina o preço é a visibilidade da arena Há os lugares baratos que estão mais altos e no sol; e lugares mais caros, mais abaixo e na sombra. Na foto ao lado, vê-se o camarote reservado à Família Real e outras autoridades. Como a novillada não é tão importante como a tourada e estávamos em fim de temporada, os preços eram iguais para todos. O meu era o “tendido bajo” que pode chegar a custar 250 euros em dia de Fla xFlu. Não há conforto, pois a construção é de cimento. Se você quiser algo mais macio tem que alugar almofadinhas, que obviamente, dispensei.

O objetivo da tourada ou da novillada é o mesmo: matar o touro. Como? Bem, cada toureiro tem que provocar o animal e para isso, é ajudado pela “quadrilha”, aqueles três colegas que o assistem e os “picadores” que vão espetar com o bicho com lanças pontiagudas. O toureiro terá três “tempos” (tercios), que duram uns oito minutos, para exibir suas habilidades e matá-lo. No total são seis touros, dois para cada toureiro.

DSC04041O ritual é bem definido. Primeiro entram dois cavaleiros, seguidos dos toureiros acompanhados de suas quadrilhas, os picadores, as mulas que retiram os cadáveres dos animais e o pessoal da limpeza. Todos fazem uma saudação ao camarote real, ao presidente e aos assistentes que são os árbitros. Sim, porque no fundo, é uma competição do homem contra a morte; e dos toureiros entre si. É o presidente que decide se o toureiro foi bom o suficiente para cortar as orelhas, o rabo ou sair pela Porta Grande.

Depois das saudações, cumprimentos entre si e ao público, orações, etc. soltam o bicho. A quadrilha e o toureiro o provocam. Esta parte é emocionante. Incrível ver um homem se medir com um animal que pesa meia tonelada! Mas soa o clarim anunciando o fim do primeiro tercio.

Entram os picadores. Um deles deve ferir o touro no dorso. Detalhe: os olhos dos cavalos dos picadores são completamente vedados, pois o touro investe contra ele impiedosamente. Após este primeiro ferimento, os quadrilheiros espetam as banderillas no bicho. Essas nada mais são do que espetos enfeitados e o sangue jorra para o touro ficar fraco, cansado e enfurecido. Fim do segundo tercio.

Toureiro e touro se enfrentam. Em um primeiro instante, a capa rosa é utilizada para atraí-lo e o toureiro o provoca com gestos e gritos. Daí o “venga,venga” . O toureiro exibe sua maestria manejando a capa e cada passo parece uma dança, um balé. Seria lindo, realmente, se o oponente estivesse ali por vontade própria, em iguais condições e não todo ferido e ensanguentado. Troca-se a capa rosa pela vermelha e com esta, vem a espada. O objetivo é cansar mais o touro e enfiar a espada no seu dorso, direto na aorta. São três tentativas. Se o toureiro alcança na primeira é a glória. O touro morre quase imediatamente, o povo aplaude, jogam flores, acenam lenços brancos e ele roda a arena agradecendo. Se não consegue é vaiado e xingado como atacante que perde pênalti.

O evento não é recomendável para amantes dos animais, pessoas sensíveis ou simplesmente, aqueles que não gostam de ver sangue. Não há limite de idade e havia um monte de crianças felizes com seus avós contentes. Entretanto, há outro modo de conhecer este universo sem peso na consciência: basta fazer a visita guiada ao museu taurino e à Plaza de Toros de Las Ventas.

As “plazas de toro”

Ainda que você seja contra a tourada ou não tenha oportunidade de assisti-la, vale a pena visitar uma plaza de toros, pois muitas possuem um museu e serviço de visitas guiadas. Quase toda cidade espanhola que se preze tem sua “plaza” e assim como o futebol, há tanto lugares padrão Fifa como alçapões. Na Espanha, as de maior importância são “La Maestranza” em Sevilha e “Las Ventas”, em Madri. Um detalhe importante é que as plazas também albergam outros eventos como shows, feiras gastronômicas e festas em geral. Afinal, as touradas só ocorrem, dependendo da região, de abril a outubro.

Mesmo que a cidade não esteja integrada na primeira divisão das touradas, nos dias de festa da cidade ou dos padroeiros se costumam realizar touradas com os chamados “toureiros de primeira linha”. Esses são tratados como os craques de futebol, aparecem em revistas da imprensa do coração, são temas de programas de variedades e alguns são contratados para a publicidade. Um matador que pertença à primeira divisão pode ganhar até US$ 150.000,00 por evento. Nada mal, hein?

Informação:

Onde? Plaza de Las Ventas, calle de Alcalá 237. Metrô Ventas, L2 ou L5.

Visitas realizadas com audioguia.


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2 Comentários

  1. Karen diz:

    Oi! Vou para Madrid ano que vem e estou pesquisando datas. Será que no fim de março já está aberta a temporada das touradas? Obrigada.

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